Invisível

Meu lado invisível
tem janelas
sem grades
tem milagres
sem rezas
tem gramática
sem letras
tem laranja
sem gomos
(aliás, sem casca...)
meu lado invisível
eu não sei
é invisível

Passagem

Nossos olhares
não são chispas de amor,
nem de paixão.

são nuvens
carregadas de ilusão

o resto
é esperança
tempo
e passagem

Domadora

Domo
enseadas

quebro
palavras

corto as asas
dos anjos

e não deixo nada
aos que virão

Soletude

Contemplo
teu Mallboro
na ânsia e distância

não me deste o mote!

tive que arrancá-lo
do eco dos deuses

infidelidade
clandestinidade

querias tirar o cansaço
de minha alma

na ilogicidade da lua

y me quedé sola

na parede nua

Silêncio-ternura

Ao Zé Dutra


As pedras rolam
e seguem
és tempo e inauguração
furacão e brisa.
Se és terra,
abraço tua ternura,
mas teus olhos não.
Se deixas minha alma
sem chão, ela sorri,
quer voar por tua mão.
Sei que a vida se vive uma vez
e são tantas as gaiolas
deste mundo...
Então, se eu morrer amanhã
sem nossa conversa
sob as árvores,
direi apenas
de teus olhos? incômodos
não burlarei
teu silêncio-incompletude,
nem descobrirás
meus véus-fragilidade

o resto são entrelinhas
e nada mais.

Rio & tempo

funéreo o penhasco
suja a água
sem o dom original,
desacompanhada do leito
já sem curso

mas as gentes sorriam e
falavam
olhando o estranho rio,
com dobras no curso
longe do leito

no escuro do rio
– as dores das gentes
escuras também
em seu parco viver.

sono

I

não havia esteira
no eco do sonho
não havia esteira
e a vida dormia
dormia

II

um dia acordou cansada,
bruxas haviam rondado
sua noite
o sono fugia-lhe
pelos vãos do escuro
– não havia luar

III

noite adentro
perambulou sem fé
cactos lânguidos
jogavam a sorte
nos espinhos
é hora de cair as
cortinas
– talvez acordar.

inveja

Menina de trança,
o tempo vem
encostar-se em ti
para roubar um pouco
da tua graça.

Silêncio

O silêncio morno
dos teus olhos
carregados de
antigas partidas
avisam de um
real perigo
chegas manso
sem estardalhaço,
mas avanças
a cada dia um passo
tecendo o laço
que enlaça
nossas vidas
na doce sugestão de
carnudos lábios
sem ganas
e flertes
entre o castanho e o negro
do olhar.

Insaciedade

o tempo
leva o rumo dos sonhos
no verde dos olhos
a tarde cala segredos
dilacerando o outono

as mãos são folhas
levadas pelo vento
na chuva do teu abraço

névoa-noite
tormenta-pele
anseio-delírio

lençóis no chão
insaciedade, insanidade
e o suor dos corpos

é chama eterna
de inconclusos
amantes

Perfume

Com pressa

não
sentirás

meu
perfume

Posse

Se meu corpo te procura
não bastam lembranças
há a sede e a gana
jorro uma dança insana
em teu corpo nu
requebros de serpente

o vulcão de teu corpo
a fazer-me lânguida
na hora da posse

olhos fechados
mundo desconfigurado
só um gemido
a balbuciar
( talvez )
amor
eternidade? ( não somos deuses )
só chamas a consumir-se
na fúria do instante!

Segredos

Se um raio de luz
atravessa minha vida
e parte-se em dois,
é porque as preces foram ouvidas,
mas o rio da vida secou.

O eco traz a sombra
e bem mais que lembranças
atravessam meu corpo
num passado tão presente
eternamente presente...

Há murmúrios,
segredos não revelados
e um intransponível abismo,
mas há também
o desejo de que não te vás

Sem levar um pouquinho de mim.

Momento II

A escada. A porta.
Ninguém baterá.
Pouca palavra.
Os olhos sangram ausências.
As mãos entabulam o querer.
Caminhos aflitos do corpo.
Livros na mesa.
Rendição.
Fuga do tempo.

Ele quis demais.
Ela quis demais.

( mas havia o mundo
lá fora )

Descalça

descalça
carrega o destino
com medo de que
rochas de vidro
se quebrem

com medo
de não ser vontade do destino
o que ela qer realizar

ainda com medo
ela sela o acordo
com o homem moreno
de profundos olhos
e força no verbo

e, mesmo com medo
da rocha da vida
quebrar
carrega o destino
descalça

Desenredo

do corpo
que desconheço
cela nua
nunca vista

imagino um desenredo
em curvilínio
universo

na ponta dos dedos
teço mapas
para minha ânsia
acalmar

e nessas estradas
que vou
- viajante
sem destino -
aplaco tuas
montanhas
e perco-me no
teu mar

Imagens quebradas

sombras de baile dançando ao vento
eterna onda de amenos mares
perdidos encontros no véu do presente

vida que vibra
céus de encanto

magia de outonos nas folhas caídas
calada ilusão
tronco secando ao relento

imagens quebradas
na noite dos tempos

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Não fosse o poema

O dia em que as mãos se tocaram
disfarçamos
fingimos não estar acontecendo
e tontos, burros e cegos,
desviamos o olhar
e o passado fez eco
para as vozes

o momento passou
( um minuto anônimo,
se um poema não bastasse
para salvá-lo )

Valsar

Estar em teus braços
leves
por instantes
breves
é como dançar
"Contos dos Bosques de Viena"
- valsar
e valsar
na leveza de teus passos -
e em uníssono
agregar à vida
mais um sonho
no brilho da nossa estrela.

Ânsia

Não sei o que quero
não sei o que queres
e falamos demais
e falamos de menos
ou nada falamos
deixamos as rédeas
de nossas ânsias,
castradas pelo tempo
e distância
de mãos,
falarem
sem a teia das palavras
na rede da energia
na polaridade do alumbramento
de tuas águas

não te vislumbro amanhã
sinto teu corpo
sobre o meu
hoje
apenas...

Enquanto a cidade dorme

Enquanto a cidade dorme
rememoro
enxovalhados pensamentos
olho o asfalto e as luzes,
mas não vejo nada
- tudo que vejo é nada -
um coletivo
duas ou três pessoas
um cachorro,
idas e voltas

a cidade dorme
e não posso adormecer também

Enigma

Um pombo
pousou
meu destino
e derramou
grãos
de
esperança
fazendo do
contido,
riso

decifrar?
pra quê?

Poesia

gaivotas velejando
sobre o verde-azul do mar
olhos de paraíso
vislumbrando o infinito
ancião-menino
dobrando a esquina

passos de luz
povoando de sonhos
a noite

vida-morte
dura lida
e o resto,

é sorte !

Resumo

Pensas que durmo,
amigo?

À noite

afio
meu
prumo.

Pecado

Primeiro
ele se achegou
com uma flor na mão

depois
mexeu na casa
cortou meus cabelos
fez nossa comida

e então
tomou meu ventre
e cometemos o pecado
de amar
sem amor

Máscaras

Mágico é o instante
do encontro das
mãos
Mas tua busca é maior
queres além das mãos
queres a mim inteira

( como se eu inteira
fosse... )

Eu

asas de menina
em sonhos de mulher
flor de guanxuma
pedindo alento
no desencanto das estações
sombras da noite
na soleira da janela
marcas de dor
estampadas na agonia da tarde

grito,
silêncio
e poesia!

Novos (velhos) tempos

Nuvens em janeiro?
- não!
Névoas em janeiro?
- sim!
E nos mecânicos sonhos
dos novos,
o cosmo se renova,
é verão
e o sol aquece,
clareia,
só não dilui
a escuridão
do coração,
não esvanece a dor
não faz nascer o amor
o amor
só sente a nostalgia
do paraíso
- in illo tempore -
e o desejo cru
de reintegrar-se
à criação
já não podendo...Ser!